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A vida num só dia

Um lugar de partilha de histórias, meras opiniões, puras reflexões ou simples desabafos

A vida num só dia

Um lugar de partilha de histórias, meras opiniões, puras reflexões ou simples desabafos

Sex | 14.04.23

Mistério na planície

Pedro

Estávamos em pleno verão e a manhã desse dia começara radiosa na planície alentejana. A imensidão dos campos de cultivo perdia-se no horizonte e naquele imaculado céu azul. Estava o ambiente perfeito para o casamento. Mas por pouco tempo. Embalado por um tímido arco-íris, depressa passou a ficar encoberto, com os primeiros pingos de chuva a surgirem no átrio da igreja onde iria decorrer a tão aguardada cerimónia.

Os convidados, cerca de uma centena, não faltaram à efeméride. Estavam ansiosos. Tal como João do Céu, que aguardava, no altar, pela sua noiva, Olívia Toucinho. É verdade que estava calor, mas as gotas de suor que lhe escorriam pelo rosto não escondiam o natural nervosismo. Valia-lhe o casaco do seu fato azul celeste, que lhe cobria as manchas visíveis na zona das axilas da camisa branca.

João era um homem que não passava despercebido ao sexo oposto. Alto, esbelto, destacava-se pelos seus longos cabelos castanhos e pelos olhos azuis acinzentados. Porém, o semblante, sério e compenetrado, alterou-se, subitamente, assim que ouviu o toque do seu telemóvel. Colocou a mão no bolso das calças, olhou para o ecrã e viu que se tratava de uma SMS do pai da noiva. “João, é o Toni. Por causa da chuva, a Olívia escorregou e caiu das escadas. Sujou o vestido e está cheia de dores numa perna. Estamos a caminho do hospital”, referia a mensagem.

João nem queria acreditar. Aquele que poderia ser o dia mais importante da sua vida, cedo se tornou num pesadelo. Sem conter a emoção, João sentou-se e ficou impávido a olhar para o altar. O tio da Olívia, que se encontrava nas primeiras filas, percebeu que algo se passara e confrontou-o. “O que se passa João? Estás tão pálido…”, observou o Joaquim. “Foi a Olívia… ela… ela…”, balbuciou o João. “Mas ela o quê?! Fala homem!”, retorquiu. “O meu sogro disse-me que a Olívia caiu das escadas e que foi para o hospital. Vou ter de ir para lá”, afirmou, a soluçar.

Sentiu-se, de imediato, um ambiente tenso na igreja. Os convidados murmuravam e mostravam-se incomodados com a demora. Já o padre desdobrava-se em explicações. Recomposto, João saiu disparado da igreja e, sem interromper o passo, puxou do seu smartphone e chamou uma viatura da Uber para ir ter com a sua noiva.

Chegou, em poucos minutos, ao hospital de Évora. Atordoado, dirigiu-se às urgências e perguntou, no guiché, pela Olívia Toucinho. A resposta não foi imediata, tão-pouco a que ele esperava. “Estou a folhear as presenças e não vejo ninguém com esse nome”, anotou a secretária. João insistiu e, face a nova resposta negativa, decidiu ligar ao sogro, mas sem sucesso. O telefone dele estava desligado. E o da Olívia também.

Que mistério era este? Teria Olívia, de facto, caído e ido para o hospital?

 

*Este conto foi escrito no âmbito do curso de Escrita Criativa (Março de 2022)

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